Terça-feira, Março 10, 2009

And the winner is...



Quando pensamos na relação da política com o cinema, muitas vezes, desprezamos a sua interessante ligação.
Quando no domingo de madrugada me aventurei pelas muitas horas de cerimónia de entrega dos Óscares, não pensei chegar ao fim e ver viagens pelo passado, e fantasias pelo presente a transformarem-se num interessante quadro da nossa sociedade global.
No início da cerimónia apresentada por Hugh Jackman, pareceu por momentos que a crise financeira teria afectado aquele estrato social de difícil comparação ao nível de fortunas pessoais.
O anfitrião puxou dos galões e transformou materiais descartáveis e cenários quase infantis, numa breve compilação/paródia dos filmes nomeados. Com o tempo fomos percebendo que a crise não afectou a Academia e se duvidas houvesse, bastava uma vista de olhos pela passadeira vermelha para percebermos que um vestido Armani e uma colar de esmeraldas e rubis não são sinais de recessão na indústria cinematográfica.
Com os nomeados foram chegando aspectos interessantes. O primeiro e mais relevante, foi o já referido alargar de horizontes da Academia para filmes e actores estrangeiros. A globalização está ai! Vê-se numa Penélope Cruz a receber o Óscar de melhor actriz secundária com um inglês de sotaque espanhol e depois na sua língua materna. Parece que Portugal está bem aqui ao lado…fica para a próxima.
Com o desenrolar da cerimónia foram aparecendo os prémios técnicos. E fui me debruçando sobre os vários clips dos nomeados, e recordando os filmes que já tinha visto. Surgem momentos de curiosa correspondência com a fotografia dos nossos dias, mesmo num passado recente. “Frost Nixon” foi me lembrando do dilema incessante de quem quer fazer o melhor pelo seu país mas que batalha para se manter dentro dos limites dos seus princípios e da sociedade. Nixon fracassou nessa batalha mas deixou-nos uns momentos de honestidade pouco usuais na política e na vida.
“The Wrestler” promoveu o espírito de luta pela sobrevivência. As dificuldades e os problemas são para se enfrentarem com trabalho e dedicação, o que mostra também que a dignidade está em nós próprios e não no que os outros definem por nós. Pelo meio, lá veio aquele que penso ter sido dos mais bem entregues prémios da noite: o de melhor actor secundário. Heath Ledger fez um papel de uma vida, para ser lembrado mesmo depois da morte. Superar o Joker de Nicholson parecia impossível e ele…conseguiu! Lembrou que a loucura pode ser também um sinónimo de genialidade e arte. Voltei aos clips, e fui me passeando por outros dois momentos de filmes estrangeiros, um a relembrar a guerra Israel-Palestina, e um outro filme Japonês que conta uma história relacionada com o desemprego – um homem que fica sem o trabalho numa orquestra e vê se forçado a ir trabalhar numa funerária. Volta se assim a referir a dignidade de quem trabalha…
Chegam os grandes momentos e chegam também os sonhos e fantasias de milhões. Percebeu se pela música que a noite era de quem podia ambicionar a riqueza no dinheiro e no amor, num filme que fala da corrupção, da pobreza, do crime e da eterna ilusão de enriquecermos de um dia para o outro. Este é um filme que vem deixar uma nota muito relacionada com os portugueses. Lutem pelo que querem mas a avareza não trás felicidade nem estabilidade. “Slumdog Millionaire” ganhou quase tudo o que havia para ganhar pois era global e pessoal e com os sonhos ninguém perde.
Saiu um grande derrotado da noite mágica de Hollywood, “The Curious Case of Benjamin Button”. Parecia nem ser o grande filme que é, mas numa altura em que queremos viver para sempre, querer envelhecer ao contrário só traz mais problemas.
No fim havia um grande vencedor. Mas eu vi, ainda, outro grande galardoado da noite. Sean Penn e o argumentista de “MILK” foram premiados e tiveram discursos inflamatórios da audiência. Falaram do que não se deve falar (perdoem me a ironia). Falaram de igualdade de Direitos, e de repente nesses momentos parecia um assunto tão simples, que me arrepiou as muitas vezes que duvidei ou questionei os direitos dos Homossexuais…e a frase de Harvey Milk no filme diz quase tudo…-Por mais que tentem vocês nunca poderão apagar aquelas palavras da Declaração de Independência. Que sirva de exemplo para um Portugal cinzento que teima em resistir à razão e à evolução dos tempos.
Bela noite de Óscares, bela noite da magia e fantasia, mas apesar das parecenças, ainda sabe melhor viver do que ir ao cinema.

David Silva, membro do secretariado concelhio